Atrás de mim, bem atrás, as águas do Sena me acenando para uma salvação da qual me distanciei.

Neste momento, na beira de um rio no qual até Heráclito passou, em meio de seixos milenares, o sol abrasador do oeste do Rio Grande do Sul mistura toda a natureza numa feérica cor laranja, trazendo a presença de espíritos indígenas. Espíritos que se banhavam nestas mesmas águas, na verdade em outras águas, neste mesmo lugar.

Ontem, índios missioneiros. Hoje, eu.

Assim também frente ao Sena tive minha primeira reunião política, secreta. Me trazendo consciência e sabedoria. Amigos e conhecidos fugindo da ditadura de Franco. Conhecidos da minha América Latina onde tantos eram os “desaparecidos”.

Meu Deus! Por quanta coisa já passei...

Depois de um dia extremamente movimentado, chego na estação rodoviária de São Borja. Já passam das dez da noite. A luz difusa ilumina, como pode, a pequena estação. As vidas que cruzam por ali caminham quietas, lentamente. Às vezes se confundem entre o real e o irreal.

Meus pensamentos ainda vivem meu turbilhão. A semana inteira foi de negociações, contabilidades.

Meu Deus! Logo eu, que faço contas nos astros ou pela lei das probabilidades.

Meu coração bate forte. Lá, nos negócios, sempre me vejo diante da caverna de Ali Babá.

Busco contabilizar perdas e ganhos. Naquele momento, dou-me conta que eu estava totalmente sozinha. Era tudo comigo! Entendi que tinha de caminhar a sós na descoberta do paraíso do ouro perdido.

A única pessoa legítima, com vontade de ser, de viver, sou eu, a Marta, e eles com ânsia de ter mais um pouquinho.

Não carrego o título de Taróloga apenas porque todo mundo pensa que ler o tarô é o mesmo que ser cartomante.

Cedo descobri que gosto de oráculos – como fonte de energia do conhecimento. Não tenho nada de cartomante; não por preconceito. É que o que faço se trata, para o meu temperamento, de magia: não tem horários.

Adoro quando ela - a maga - me procura e toma conta de mim. É sinal de que estou permitindo, ficamos tão amigas que nossa parceria vira mágica. A mestra sempre me faz fugir da mesmice.

Mas, enfim, ali estou naquela estação pela qual passaram tantos seres importantes – presidentes, políticos, eclesiásticos – e pessoas simples, estudantes, capatazes. Por ali deixaram histórias de sucessos e derrocadas.

De abandonos de projetos. De projetos.

Quanta esperança passou por ali.

E agora sou eu quem passa.

Com esperança?

Não tenho a resposta, mas vou, avanço, caminho resoluta para a frente. Nada me detém, ni le bien ni le mal...

Com estudo sobre os índios, aprendi a viver realmente essa aventura e permanecer no caminho sagrado; e para isso, aprendi a ter muita paciência e também a funcionar como uma flecha.

Embarco no ônibus, vou até a poltrona-leito, e me acomodo.

Meu Deus, estou terminando uma das minhas grandes missões: Fechei o inventário da minha sogra.

Mas achei que fosse só isso! E... Nunca é só isso!

Dez anos se passaram, de 1991 a 2001.

Passara a semana em São Borja, cuidando de papéis. Inventário, inventário. Depois do falecimento da minha sogra, em 1991, tentei, com meu marido Vicente e por nossa plena cumplicidade, traçar uma forma de começar a entrar na nossa terra, pois todos os caminhos eram inóspitos.

A terra fora abandonada devido ao exílio: deixaram nas mãos de arrendatários.

Logicamente, estes pensavam que eram donos, e com toda a razão - não tinha quem mandasse.

Entrar na fazenda, para mim, era quase proibido.

Um dia estava meditando na grama da porteira. Peguei uns galhinhos secos, segurei na mão um cristal, fiquei na frente do sol poente, sol do oeste, forte. Dali a pouco, de dentro da fazenda, num carro velho, saem alguns trabalhadores, param, e me perguntam: "A senhora é batuqueira?" E eu com aquele cristal e aquelas florzinhas digo: "Até posso ser, mas sou, antes de tudo, a proprietária!"

Aí começou a minha grande aventura. Aprendi a tramar uma guerra sem fim, mas que teve outros começos.

Eu, para quem tudo eram as estrelas, e que andava viajando por elas com a minha vassourinha, passei anos sem entender o que significava a palavra "inventário". Pois é... os grandes fatos têm a sua hora certa!

Como sempre pensei assim, deixei tudo nas mãos da magia; para que me incomodar antes das coisas, me pré-ocupar (e, claro, preocupar-me)? Ela sempre me entregou a fruta caída de maduro na minha cara, como uma jaca.

Um dia uma botinha com um pelego muito queridinho me encontrou. Com sola de borracha, ela caminha firme, quentinha, e em qualquer lugar. Me pediu para eu ser a sua dona e logo fizemos um pacto de amizade eterna.

Vamos caminhar como o poeta espanhol Antonio Machado: "caminante, no hay caminos, / se hace camino al andar".

Realmente, a fazenda fica entre São Borja e Santiago do Boqueirão - Santiago, sim, mas não de Compostela.

O ônibus se mexe. Ele está partindo. Acomodo-me um pouco mais. As luzes da cidade diminuem.

Ele vai rodando em direção ao breu, entre as fazendas, que guardam ainda tantos segredos dos índios guaranis e dos missioneiros que antes eram os donos da terra.

Neste meu caminho a Santiago, “aprendi a ver o melhor e o pior sem jamais perder as esperanças”. A saber das horas através do sol, a respeitar mais e mais a natureza em todos os seus caprichos.

A natureza sempre diz espera eu brotar, eu crescer, para me colher.

Penso no meu primeiro grande amor e me pergunto: como seria a minha vida se eu não tivesse tanta sede de cumprir o meu destino?

Se eu não tivesse a irreverência de sair atrás de mim sem pensar no que estava deixando?

Tudo sempre deu certo. Fecho então os olhos, e começo a adormecer num misto de ontem-e-agora.

Eu estava orgulhosa de mim. Só faltando oito horas para chegar em Porto Alegre.

Aquele balancinho... Que bom, parece meu berço.

Adormeço...