Publico novamente este texto em Homegam ao presidente João Goulart que completaria 93 anos no dia 01 de março.
Neuza Goulart Brizola uma prima Jango e Tarcila Goulart do Valle (minha sogra)
O dia foi muito agradável, já que Tarcila sabia receber como ninguém, com suas toalhas de linho e seus talheres de ouro português.
A casa era de grandes pedras cinzas. Na frente em arco, um portal que escondia um avarandado a se estender por toda a volta da casa. Heras também caíam pelas janelas e pelo avarandado deixando, junto com as árvores que circundavam a casa, tudo muito sombrio.
As crianças foram arrancadas dos seus doces sonhos, que acabaram tornando-se pesadelos para o resto de suas vidas.
Lá fora começaram a metralhar a casa. A família não tinha noção do que de fato estava acontecendo.
Amanheceu... e o clã familiar não dormiu nunca mais o sono dos justos. Aquele fantasma os acompanhou para o resto de suas vidas.
Neuza Goulart Brizola uma prima Jango e Tarcila Goulart do Valle (minha sogra) Os ventos negros do golpe militar começaram a soprar contra as famílias Goulart, do Valle e Brizola em uma noite de 1963.
Principalmente depois do comício mais importante, que ocorreu a 13 de março de 1964, em frente ao Edifício Central do Brasil, sede da Estrada de Ferro Central do Brasil.
O Comício da Central, como ficou conhecido, reuniu cerca de 150 mil pessoas, incluindo sindicatos, associações de servidores públicos e estudantes.
Os discursos pregavam o fim da política conciliadora do presidente com apoio de setores conservadores que, naquele momento, bloqueavam as reformas no Congresso.
O presidente, em seu discurso, anunciou uma série de medidas, que estavam no embrião das reformas de base. Defendeu a reforma da Constituição para ampliar o direito de voto a analfabetos e militares de baixa patente e criticou seus opositores que, segundo ele, sob a máscara de democratas, estariam a serviço de grandes companhias internacionais e contra o povo e as reformas de base.
Goulart anunciou que tinha assinado um decreto encampando as refinarias de petróleo privadas e outro desapropriando terras às margens de ferrovias e rodovias federais.
A oposição acusava o presidente de desrespeito à ordem constitucional, pois o Congresso não havia aprovado a proposta do governo de alteração na forma de pagamento das indenizações aos proprietários. Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, disse que o presidente era um “subversivo”.
Jango foi o primeiro presidente a estudar uma reforma agrária. Segundo minha sogra Tarcila, uma das intenções dele era repartir as terras: duzentos metros quadrados ao longo das rodovias onde existiam fazendas.
A deposição de seu governo estava a caminho. E chegaria duas semanas e meia mais tarde.
No dia 31 de março, Jango ligava para seu cunhado João Luiz Moura Valle, e também para sua irmã Tarcila Goulart do Valle, pedindo que eles fizessem um almoço para os ministros do Egito, pois andava muito atarefado. Solicitava que eles fizessem isso no seu magnífico sítio em Jacarepaguá, até mesmo para que a família se estendesse - em nome da segurança - pelo final de semana.
A família contava, além do casal, com uma babá alemã (Adelina) e os dois filhos, os meninos José Henrique (Ike) e Vicente Luiz, respectivamente de cinco e oito anos de idade.
O dia foi muito agradável, já que Tarcila sabia receber como ninguém, com suas toalhas de linho e seus talheres de ouro português.
As crianças corriam nos pátios com esculturas de deusas espalhadas ao longo do sítio. Aquedutos, e lugares para preparar um bom churrasco naquele cantinho de paraíso dentro de um pedaço da Mata Atlântica.
A casa era de grandes pedras cinzas. Na frente em arco, um portal que escondia um avarandado a se estender por toda a volta da casa. Heras também caíam pelas janelas e pelo avarandado deixando, junto com as árvores que circundavam a casa, tudo muito sombrio.
Completando a exuberância do cenário, pássaros tropicais em sua infinidade de espécimes. E um verde tão intenso como luminoso. Frutas exóticas caíam às pencas. Isso sem contar a presença, sempre impressionante, do jequitibá, árvore símbolo da Mata Atlântica.
O sol ameaçava se pôr. Avançava a noite que calaria o Brasil.
Minha terra, com tantas palmeiras, mas onde o sabiá não cantaria mais.
Depois de um jantar frugal, a família e as crianças se recolheram aos seus aposentos para dormir.
De madrugada, Adelina acorda ao som de metralhadoras.
As crianças foram arrancadas dos seus doces sonhos, que acabaram tornando-se pesadelos para o resto de suas vidas.
Lá fora começaram a metralhar a casa. A família não tinha noção do que de fato estava acontecendo.
Só escutavam o som das metralhadoras, sem parar.
Resolveram esconder-se embaixo da cama, para se resguardar das balas dos fuzis.
Amanheceu... e o clã familiar não dormiu nunca mais o sono dos justos. Aquele fantasma os acompanhou para o resto de suas vidas.
Quem era o alvo, João Luiz Moura Valle, redator político e articulista do Jango?
Não. Todos nós.






