Era uma vez...



Era uma vez, uma linda mocinha bem educada, com principios criados através de seus pais, mas escolhido por ela mesma. A minha própria rebeldia me criava a cada dia um grande desafio. Mais uma ponte para atravessar...

Não sei se por temperamento minha história, desde pequena com meus primos, já gostava de criar pequenas congregações, turminhas. Assim me sentia protegida. Como não gostava de parar muito tempo nos lugares e somando ao meu coração cigano me levei para o mundo, onde testei mais uma vez  a minha criança que oferecia idéias para diversões com cumplicidades,  formando uma franchising de amiguinhos.

Cansada de varar o mundo, me recolhi na volta de Paris e de Londres onde morei nos sete últimos meses  da minha estada na Europa.

Meus pais moravam neste período na rua José Bonifácio, um apartamento que dava de frente para a  praça da Redenção, como era quarto andar, o meu quarto era em cima das copas das árvores. Também  do pequeno avarandado fechado que dava de lado para igreja Santa Terezinha, ela a Santa ficava no mesmo quarto andar majestosa, com uma bela coroa, acho que de rosas e um crucifixo. Minha mãe comprou uma esteira e botou neste avarandado. Logo sua amizade com a santa foi ficando mais estreita, pois enquanto  caminhava, conversava com ela.

Recolhida, não queria dizer que eu estava parada, pois varava o Brasil do Oiapoque ao Chuí. Tanto passava férias em Belém na casa dos pais da Fafá de Belém, me misturando à Amazônia, como ia assistir uma corrida de formula 1em Buenos Aires com meus amigos Dirceu Sperotto, Alcides Sanvicente e Paulo Luiz Bertazo (Poluca)

A vida sempre me proporcionou, tinha toda a noção do medo, este que nunca me abandonou. Na verdade nunca duvidei das atitudes que pareciam kamikazes para os outros, sempre caminhei na corda bamba entre o bem e o mal, sendo que este naquela época não tinha veneno, sempre deixei a vida me desafiar, batizada por certa burguesia.

 Minha mãe neste período viu que eu não estava feliz, o que a fez, apesar de judia, se agarrar todas as manhãs num “conversé” sem fim com a santa.



E eu com vinte oito anos me sentia desesperançada, sem metas. Estudara muito algumas matérias, como geografia, sociologia historia e filosofia. As outras matérias que eu não gostava não estudava, o que começou a ficar difícil passar de ano. Arrastei o clássico por cinco anos, até que era bom ficar no Julho de Castilhos, pois não havia outro lugar para se encontrar cultura e efervescência do que ali.

Eu ficava nas escadas pescando algum professor para começar a sonhar. Principalmente filosofia prof. Cinnel e geografia física que me levavam até as estrelas. Havia muita consciência política. Entre estes companheiros estavam Isaac Ainhorn e Fogaça, e eu no meio. Promovia um teatro lá, com numeros de alunos. Eu, dançava Zorba o Grego.



Aquele frenesi dosado por Marx e Lênin me deixava extasiada com o poder da política.
Depois Paris em Vinccène que aí sim o estudo era nos corredores da faculdade. Todos eram revolucionários, menos eu, acompanhada de uma certa inteligência.

Talvez eu estivesse com medo de ficar solteirona, sem um amor, sem foco, como o centauro, metade homem metade cavalo, arqueiro do meu signo Sagitário, quando não tem alvo, pasta.
  
Casei com o meu primeiro amor. Mais tarde percebemos quem foi, realmente, o verdadeiro “primeiro amor”, porque nos eventos de nossas existências ele, como episódio, acaba sendo o segundo, o terceiro...



Meu marido Vicente Luiz, foi o terceiro de dois malfadados relacionamentos. Chamo de primeiro, porque a relação teve começo, meio e fim.
Fiz uma confusão nas religiões, com a idéia que na Bíblia  diz que a mulher tem que seguir seu marido. Como a minha sogra era muito religiosa, eu tentava  por um casamento ecumênico, mas não sei até hoje se foi ou não! Mas casei!!!!

Tudo que tinha que fazer eu fazia. O que achei mais pueril foi o curso para casar. Comecei a entender de paróquia, do céu todo azulzinho com os anjos  verdinhos e cor de rosa, com a Santinha no meio com um rosário na  mão, pronta pra ajudar a qualquer um que a invocasse.

A primeira vez que entrei no escritório de um padre (que tem um nome,) foi na Igreja Auxiliadora com o padre Maximo que ainda vive.O temor de misturar as religiões era menor que minha curiosidade.

Antes de ir, fiz dona Sila me dar dois licorzinhos de "genipapu", esperamos na sala dela até  perto das cinco da tarde, quando adentramos pelo portal do medieval escritório do padre.Eu estava correndo num estreito rio, não tinha volta, eu iaaaa.... Eu queria casar e ter família.
A minha própia identidade estava se formando. Meus sentimentos são meus, o que o mundo enxerga para julgar que seja deles. A mim nunca interessou julgar, jamais iria gastar meu tempo com isto e sim para observar tudo o que se passase na minha vida. Assim sempre aprendi.

Queria continuar meu convescote, logo pedi ao padre mais um licorzinho, ele meu olhou atônito,eu por minha vez olhei-o suavemente e disse: É que eu quero ter coragem pra lhe dizer que eu nunca vou trocar uma estrela por uma cruz.
                                
Era uma vez...



Uma linda, bem criada e culta mocinha cansada de varar o mundo.

Éramos como uma sociedade secreta, na qual começava a ser formulada a partir de voltas do exílio: eu de Paris, eles a família Goulart-Brizola do Uruguai, da Argentina e do Paraguai, de onde também voltavam os uruguaios Tupamaros (perseguidos por seu governo).

Uma das fazendas em que nos reunimos durante alguns anos foi a El Milagro. Ficava perto de Maldonado e a seis quilômetros de Punta del Este. 

Fazendola de 400 hectares povoadas de gado leiteiro. Esta tinha sido também a última morada de Jango. Possuía duas casas – uma moderna, confortável, arejada, com piscina, e a outra... bem... era tudo o que nós, os rebeldes, merecíamos. 

A propriedade deveria ter uns duzentos anos ou mais. Daquelas de arquitetura colonial espanhola. Acho que as paredes tinham em torno de quarenta centímetros de espessura.

Ali se reuniam, homens que serviam a Jango, muitos haviam sido tupamaros nesta casa ficávamos sabendo tudo o que se passava na América. Buscávamos ficar a par do que estava por trás dos bastidores, principalmente no chamado Cone Sul

Paris foi ficando para trás, não sabia então, mas ali estava fazendo estágio para enfrentar São Borja o rio Uruguay e sua terra vermelha. Terra de dois presidentes, Vargas e Jango e um interino Ibsem Pinheiro. Minha vida de casada era tomada por encontros que terminavam com informações sobre as esferas do poder, com trocas de fatos compartilhados por todos, debatidos, sofridos, a alimentar nossa esperança ou a aumentar nosso temor – tudo que historicamente estava acontecendo no continente latino-americano.

Ali tinha história. Os móveis eram pesados, e na sala da entrada (de frente para a porta), onde era o escritório (há pouco tempo tinha sido escritório do próprio Jango, há uns dois anos), uma mesa grande servia de rústica escrivaninha.

Ao lado, um enorme cofre antigo que, quando aberto por João Vicente, caíam riquezas, dólares, relógios de ouro, rolex com diamantes e muito mais.

Numa dessas reuniões na propriedade, no início dos anos 1980, Vicente contou que a tia Neusa reuniu as irmãs na fazenda do Uruguai, e que ela estava muito preocupada com o que poderia acontecer com o Brizola, já que havia descoberto que andava em curso uma operação, continental, para matar grandes políticos. Operação Condor era o nome. E parece que fora exatamente essa operação que havia dado cabo do Jango. Internamente, desconfiava-se igualmente que o Juscelino e Castelo Branco haviam também sido vítimas do mesmo movimento.

Tais encontros com pautas bem graves aconteciam junto com os Tupamaros, uruguaios parceiros do Jango, já falecido, que agora continuavam com João Vicente. Juntávamos o grupo, secretíssimo, sempre, e ali acontecia o debate no meio das mulheres, das crianças, e de grandes cachorros de raça.

A sensação dentro dessas casas é de que elas retinham aquele grande poder político: suas paredes ainda choravam a dor do exílio. Os móveis, os sofás de couro da sala da casa nova demonstravam a simplicidade do campo. O único destaque, que ficava ao lado de uma grande lareira, era um pedestal fechado com vidros, onde estava a carta que Getúlio, antes de morrer, deixou para Jango, sua carta-testamento. 



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3 comentários:

    clarice ge disse...

    Saudades guriazinha! bj bj

    já de volta? me liga!

  1. ... on 7 de outubro de 2011 11:50  
  2. Trein Vitrais disse...

    Que linda história de vida Martinha!!!!!

  3. ... on 29 de julho de 2016 22:33  
  4. Eduardo H. S. D´Olivier disse...

    Boa tarde Martinha...
    Hoje tive o prazer de te-la como amiga em meu Face.
    E mais que prazer, um deleite, ler em seu blog parte de sua história/livro que tenho a certeza se tornará best seller assim que publicado.
    Viajei nesse pedacinho de escrito (lerei mais)!
    Querida... arranje um patrocinador pós livro para fazer um longa metragem, entre em contato com cineastas ligados aqueles episódios dos idos de 64.
    Tenho certeza que vai te dar retorno inimaginável!
    A sua história te a ver com muitos que viveram o que vc viveu e vai ler no livro sua própria historia e se houver o filme entender o que se passou e não foi contado.Fique com Deus
    do amigo
    Eduardo Olivier
    Rio de Janeiro

  5. ... on 13 de abril de 2017 17:45