Penso...Logo existo...

Penso, logo existo...






Se esta rua, esta rua fosse minha...

Eu mandava... eu mandava ladrilhar...

Com pedrinhas... com pedrinhas de brilhantes...

Para o meu... para o meu... amor passar...

Onde estava minha rua de brilhantes?

Foi a minha primeira tomada de conciência fora a rua tão alegre e tão linda, onde morava.

Além de cantar músicas lindas para mim, minha mãe cantava-me músicas lindas e também dizia:

"A vida não é um mar de rosas"

Pois é, andando por Vincénnes, naquele pátio preto de sugeira, eu pensava:

Por que estes jovens estão tão revoltados, andando com estas roupas e capotes negros? O fizeram com eles? Quem os emporcalhou?

Ficava horas sentada num muro pensando na vida...

Voltava os pensamentos para o amado Brasil, ía até Porto Alegre e meu coração transbordava de amor e saudades da minha família e amigos que ali deixei.

O questionamento era a conciência que despertava, para entender o lado escuro da vida.

O maior vilão disto tudo não é a Política: é o Poder, o Ego e a Vaidade.

Por isto, os pobres ficam cada vez mais pobres e os ricos, cada vez mais ricos.

Estes últimos são tão cegos, com uma vaidade tão grande, que esquecem que seu povo precisa comer.

Aí a Fome.

Estes vilões sempre existiram, desde que Moisés quebrou as Tábuas da Lei em cima da Monte Cião. Muito antes que eu apreendesse o que queria dizer Karma.

Quanto esta realidade estava distante do meu mundo que era de Sol, Céu, Sul.

Talvez pela diferença do passado...

Diferentes fugas.

Meu pai veio por ser judeu, veio de navio fugido da Alemanha, cujas condições eram outras, nas suas grandes malas de couro trazia jóias, tapetes persas, talheres de prata que eram da vovó Marta.

Já outros vieram vendidos em navios negreiros, tratados como bixos.

Tudo que serveria para ser lição acabava como lixo no poder.

Conciências obscuras, acham que enriquecer é ter jatinhos, piscinas, castelos etc...

Não sabem nem sentar numa mesa, e tudo que tem em volta é cafona, se a sala não tem acústica pra escutar as músicas que gostam, mandam comprar um caminhão de acústica.

Mal sabem eles, que nunca serão educados,que jamais conseguirão comprar a educação de berço.

Esta é inerente a pobreza ou a riqueza, Chamando-se caráter. Somente a conciência da simplicidade.

Ouvir o coração e agir de acordo com ele, qualquer que seja o risco, uma condição até de simplicidade absoluta, custando nada, menos que tudo.

Estas pessoas estão cegas, surdas e mudas para os seus corações.

Mas porque eu ali? Porque eu precisava conhecer este lado da vida?

Parece que o futuro queria me dar esta lição.

Aos poucos fui entendendo melhor estas pessoas, que de guerrilheiros, dentro de mim, eles passaram a ser exilados.

Todos, muito saudosos de suas pátrias. Sofrendo a separação da proibição. Longe de seus familiares, de seus amigos, de seus negócios, suas casas, seus trabalhos.

Como estariam agora meus amigos?

Um lado era maravilhoso, tinhamos o céu, tinhamos o mar e tínhamos a músca... com Elis Regina cantando:

"Eu quero uma casa no campo..."




Gil no exílio com Caetano incentivando os exilados que moravam na Europa a entender que era melhor dormir num sleep in bag, dizendo que quem não dormiu em um nem sequer sonhou...

Isso me fazia uma grande chamada para dar uma volta em Londres que era um outro exílio.

Pink Floyd dizia para conhecer The Other side of de Moon. Mas foi este que me ajudou a entender sobre a cultura da minha geração.



Eu e Rony continuamos sempre fazendo aventuras.

Numa semana fomos colher uvas num castelo no sul da França em que os donos tinham uma vinicultura.

Na época em troca do trabalho, ganhavamos cigarros, comida e alguns francos.

Quando vi que as minhas mãos estavam criando calos, desliguei da labuta e saia todas as manhãs bem cedo para conhecer a região.

Quase arrangei outros dois namorados...

Mas romantismo do momento fazia com que tudo aquilo se tornasse um cenário para o amor.

Admirava cada vez mais Josué de Castro, não porque entendesse tudo o que ele oferecia em matéria de sociologia, mas porque eu estava sentindo que este virus começava a brotar dentro de mim.

Claro, sem nunca tomar partido, mas a conciência do estudo me bastava, porque ele era como eu.

As vezes não tinha aula, as vezes tinha. Esta energia de pra lá e pra cá é a que eu levo na minha vida.

Mas e a minha amada Ilha de Saint Louis?



Gil no exílio com Caetano incentivando os exilados que moravam na Europa a entender que era melhor dormir num sleepin bag, dizendo que quem não dormiu em um, sequer sonhou...


Pink Floyd dizia para conhecer "The dark side of de moon". Foi isto que me ajudou a entender a cultura da minha geração.


Rony e eu continuamos, sempre, fazendo aventuras...

Numa semana fomos colher uvas num castelo no sul da França em que os donos tinham uma vinicultura.

Na época, em troca do trabalho, ganhávamos cigarros, comida e alguns francos.

Quando vi que as minhas mãos estavam criando calos, desliguei da labuta e saía todas as manhãs bem cedo para conhecer a região.

Quase arranjei outros dois namorados...

O romantismo do momento fazia com que tudo aquilo se tornasse um cenário para o amor.

Admirava cada vez mais Josué de Castro, não porque entendesse tudo o que ele oferecia em matéria de sociologia, mas porque eu estava sentindo que este vírus começava a brotar dentro de mim.

Claro, sem nunca tomar partido, mas a consciência do estudo me bastava, porque ele era como eu.

As vezes não tinha aula, as vezes, tinha. Esta energia de andar pra lá e pra cá é a que eu levo na minha vida.

Mas, e a minha amada Ilha de Saint Louis?

Minha colega de apartamento Bete Zambrano e eu éramos antagônicas. Ela, linda como uma madona plácida e eu fogo que entrava, saía, subia, descia.

Neste tempo, adquirimos um novo vizinho, o Moisés, mineiro de Três Lagoas.

O que me intrigava muito, porque ele dizia que só tinha uma e se as duas outras secaram, eles tinham que mudar o nome da cidade!

Cumprido, de óculinhos e gabardine, parecia um professor aloprado!

Descobri que ele era gay, me contou, aí não teve mais jeito, peguei no pé dele!

- Mas porque que você não coloca esta franga para fora?

- Não podes te vestir assim, porque deste jeito não vais arranjar um namorado!

- Vamos ao Café De Flore ver se pescamos alguém para ti!

Ficávamos horas conversando e eu inconformada, ele não parecia gay...

Falava: - Nós, nos anos 70 e tu com todo este preconceito de ser gay!

A Bete sorria, sempre com um cigarro Marlboro na mão. Eu fumava Gauloise porque nunca tratei o dinheiro com constância. Ele sempre foi uma forma de me aventurar...

Ela sempre estava com um lindo tricot na mão, comendo bombons succhard e com aquele seu precioso Marlboro. Era a rica da casa, pois cuidava do seu dinheiro.


Por sua vez, estudava fotografia na Sorbonne. Tinha sempre equipamentos de todos curso que fazia.

Imagina se na época, eu iria economizar para comprar uma máquina fotográfica bem cara...

Não tinha tempo para olhar o mundo através de uma câmera.

Bete já tinha feito vários cursos, várias faculdades, não terminando nenhuma...
Hoje é psiquiatra de ponta, mas na época eu também lhe perguntava:

- Para que tantos cursos? Afinal, o que tu queres ser?

Mas, a forma que ganhava um pouco mais de dinheiro era trabalhando como modelo para futuros pintores. Claro, a profissão especial para ela: sentar e ficar...

Muito sábia e de certa forma bem aventureira para estar alí.

Moisés trabalhava de noite num restaurante, acho que era brasileiro.

Voltava sempre com dois pacotinhos com comida do restaurante para nós.

Passou um tempo e um dia ele me chamou:

- Marta, daqui a meia hora vem conhecer o meu apartamento, que eu fiz uma nova decoração!

De tanto eu reclamar, é claro! Esperei, louca pra conhecer. Bati em sua porta e qual não foi a minha surpresa?

Moisés abre a porta com um macacão de paetê prata, com umas botinhas de plataforma, parecia um marciano gay, plumas no rosto, na cabeça, todo maquiado, mas o óculinhos continuava, tapado com uma máscara.

- Hello! Venha conhecer o meu novo apartamento!

Daquela pessoa clássica, vinda do interior de Minas ele se tornou uma drag queen, semelhante a um astronauta.

Uma grande piteira na mão, sinalizava que agora, aprendi.

Será que eu tinha criado um monstro ou uma pessoa consciente de sua condição?

Ele estava um pouco demais, o que me preocupou.

Abrindo a porta, disse: - Entre, venha conhecer meu novo país!


Quase caí de costas...

O apartamento estava decorado todo prateado, parecia um sputnink e o pior, tinha um vivente lá dentro que ele fantasiou de menina astronauta e me apresentou:

- Esta é Jean Marie, nasceu Jean e se tornou Marie, é a minha namorada!

Fiquei em choque. Senti que produzí alguém diferente nesta Terra!

Sentei na cama e perguntei, preocupada:

- Assumiste esta maravilha para sempre, noite e dia? Vais perder o emprego!

E quem nos traria a comidinha da noite?

Mas, como sempre, quando saí me virei e disse:

- Melhor assim do que do outro jeito!

Talvez ainda tu te vistas de fada madrinha, ou de bailarina, não sei, deixa evoluir!
Com estes pensamentos profundos e, profundamente hilários, me deliciava em qualquer tipo de crecimento.


Com estes pensamentos


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6 comentários:

    Anônimo disse...

    Esta ficando cada vez melhor!
    Espero o desenrolar da história.
    Maria Laura di Vicenzi, São Paulo

  1. ... on 1 de abril de 2010 12:33  
  2. Anônimo disse...

    Regina disse...
    barbaro Marta !!!
    amei..bjão

  3. ... on 4 de abril de 2010 20:29  
  4. Carla Volkart disse...

    Que susto!!! Pensei que o Roni é que tivesse virado Drag...

  5. ... on 4 de abril de 2010 20:41  
  6. Carla Volkart disse...
    Este comentário foi removido por um administrador do blog.
  7. ... on 8 de abril de 2010 21:41  
  8. veludo azul disse...

    oi Marta querida, q bom te rencontrar.....recen entrei e ja to adorando.....aquele periodo de vc morando na ille saint louis....humm..me lembrou minha estada la tb....coisa boa.....ta muito bem montado o blog...parabens anjo....vou te passar as infos da minha expo..e depois vou te ligar p fazermos 1 happy hour la.

    CIX barcafé convida:

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  9. ... on 13 de abril de 2010 19:50  
  10. Stela Grespan disse...

    Muito bom Marta. Preenchendo as lacunas que se fizeram em nossas vidas.
    Obrigada por compartilhar.

  11. ... on 7 de agosto de 2016 12:02