Parei de gostar de ir às aulas. Entre 1964-66, estudei no Julinho e muitas de minhas amigas que estudavam no Americano (foto) também foram para lá.

Colégio de pessoas com o Q.I. alto.
Desabrochávamos em harmonias tão perfeitas e expressivas que era quase impossível que a gente não ficasse lisonjeada com os elogios alheios e, portanto, voltadas para o exterior.

Ainda mais com aquela idade.

Sentia como se tivesse saído de uma infância encantada e entrado direto em “la calle”. Vindo do Americano, colégio tradicional, só de meninas, quando entrei pro Júlio desfrutei, pela primeira vez, de uma liberdade por mim até então desconhecida.

Usei e abusei.

Escola pública modelo.

Missstaaa!!! Borbulhavam mentes iluminadas pelos corredores da escola.




A BEM NO CANTO À ESQUERDA, SOU EU
Comecei a estudar e frequentar só as matérias de que gostava.

Seguia o Professor Cynnel, de Filosofia, em todas as aulas dele, não importava o ano.

Ele deixava – acho que não sabia muito bem como agir com aquela entusiasmada mocinha.

Francês, não assistia: para que macular as maravilhosas aulas que tinha com o professor Chauvin, na Aliança Francesa?

No Latim, não gostava da professora, e, portanto, também não frequentava.

O que tornava meio difícil de passar no final do ano.

Fiz da escola meu grande jardim, participando do Centro Acadêmico, onde os estudantes do Científico (os homens; as mulheres tiravam o Clássico) fervilhavam com idéias marxistas, revelando-se pensadores políticos como o Príncipe de Maquiavel.

Eu, colaborava com a minha alegria, montava pequenas apresentações no minúsculo palco da escola , plantava todos a assistir, ensinava pra três ou quatro amigas dançar "Zorba, o Grego," e lá íamos nós. Claro que eu era a principal!

O Brasil, durante os anos de 1964 a 1972, havia se tornado um território de sobreviventes mudos, calados à força política, sombras sem poder expressar alegria (que na Europa existia).

Eu mesma, no meu non sense político, passei a sentir falta daqueles professores exemplares, que me faziam sonhar mesmo dentro de uma sala de aula, ouvindo história, filosofia, sociologia.

As informações começaram a escassear, a vida passou a tornar-se, exageradamente, feita de um lado Doris Day.

Enfim, eu sentia-me sufocada com a falta de informações e, por outra parte, tratava-se do modo burguês de ser, que é muito confortável.

Entre a segurança e o deserto de nada saber, eu me sentia dividida.

O lado bom é que começamos ali a ingressar numa era nova, a de Aquários. Algo inétido estava ocorrendo: encontrávamo-nos nos sítios, em fazendas, a dormir em palhoças na beira de plantas tropicais.

De outro lado, a casa da Dona Edy Noronha, cujo hall e a escadaria eram em mármore de Carrara. Fazíamos jantares maravilhosos, lindas roupas, as moças com "Fleur de Rocaille", Caron, e os moços com "Pinnus Silvestre".

Os amigos eram saudáveis, alegres .

Escutávamos música da melhor qualidade, brotada de orquestras célebres do mundo inteiro.

Na capa dos jornais, ao invés de sair alguma notícia de cunho político, lá estava eu, não sei quantas vezes, de biquíni na praia, de costas, comprando pipoca, ou de frente, de acordo com o ângulo que parecesse mais expressivo para o fotógrafo.

Martinha curtindo suas férias.

Como fui uma das primeiras a usar bikini, reza a lenda de Capão da Canoa, que lá pelas 11horas da manhã, os homens casados e solteiros se reuniam na frente da casa dos pais do Homero Lopez, para ir à praia ver Martita de biquini de bolinha amarelinha.

Essa era, sim, a minha revolução.

Ao mesmo tempo, todo o conhecimento que tinha adquirido começava a borbulhar dentro de mim.

E o de agora?

Lia escondido Che Guevara, assim como Geografia da fome, do sociólogo Josué de Castro, que só havia nas livrarias de Paris.

Costa Gavras começou com o filme pobre, quer dizer, feito com pouco capital:

“Estado de sítio”, sobre o que realmente se passava na política e, claro, a realidade do povo na América latina.

Eu, por minha vez, tinha um pouco de medo da consciência destes fatos.

Sonhava com professores inigualáveis, que me faziam viajar nas asas do pensamento. Adorava história, principalmente.

Foi quando entrei em contato com quem passou a ser meu secreto amor, meu ídolo, no livro Desirée, o amor de Napoleão.

Começávamos a vislumbrar uma nova identidade para nós. O Brasil tornou-se um verdadeiro “País do carnaval, do cacau e do suor”.

Era bom, pois buscámos a mais grandiosa das riquezas, que é a natureza: encontrando nela somente o que tínhamos ao nosso dispor. Isto é digno!

Mas... não era só isto.

Eu não era rebelde politicamente. Nem sabia direito o que realmente estava acontecendo.

Queria, de fato, era caminhar contra o vento, sem lenço nem documento!


Kitty Kroeff e eu "hier encore j'avais vingt ans"




"Independência ou morte" frente ao Júlio de Castilhos




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5 comentários:

    Anna disse...

    marta vinte em francês é vint ou vinte mesmo não sei

  1. ... on 11 de setembro de 2009 15:14  
  2. Tita disse...

    A Marta te razão. Está correta a grafia de 20 - vingt

  3. ... on 11 de setembro de 2009 15:15  
  4. clarice ge disse...

    Onde será que eu estava no momento desta foto? Nossas coleguinhas queridas, lembro de todos os rostinhos mas infelizmente esquecí alguns nomes. Saudades...

  5. ... on 11 de setembro de 2009 18:16  
  6. Anna disse...

    é q a shonfeld tinha posto vinght, daí arrisquei uma opinião.
    mas não sei french na verdade

  7. ... on 12 de setembro de 2009 11:37  
  8. ARTES & disse...

    Estas revelações que Marta está fazendo são muito mais que revival entre amigos. É história FINALMENTE e charmosamente registrada. Minha geração (foi a seguinte) e as próximas AGRADECEM. Ou seja,..., continua porque a curiosidade já tomou conta! Carla Volkart

  9. ... on 12 de setembro de 2009 20:20