Passo pelo berço do Existencialismo, que marcou uma época extremamente bonita, charmosa, definitiva na história do Pensamento em Paris.

Assombrada, caminho pelos becos que, pelo menos para mim, contêm autênticas revelações.

Trata-se de meu primeiro dia ali.

E já vale mais que os meus sete anos de Aliança Francesa.

Pelas estreitas ruelas, nas paredes dos pequenos sobrados ainda ecoavam Edith Piaf cantando Sous le ciel de Paris e La Bohème.

Também nelas apareciam pintores famintos de pós-guerra, poetas que ainda, através de seus poemas, derramavam suas últimas lágrimas.

Caminhando ali senti meu corpo mergulhar nas entranhas do passado, sem saber se estava numa vida ou noutra.

Se me perguntassem naquele momento quem eu era, se o ontem ou o hoje, eu não saberia responder, eu estava totalmente mergulhada na história.

Marlene Dietrich, com 71 anos, vive da consagração e tem seus sucessos reproduzidos e revividos, ícone da música de cabaré como no filme O anjo azul (1930), eterna referência.

Jean-Paul Sartre, que explodiu com A náusea (1938), e sua companheira Simone de Beauvoir, com seu clássico O segundo sexo (1949), pontificam a filosofia afinal saindo às ruas para popularizar-se.

Como eu gostava de caminhar pela cidade, olhando como era a arquitetura da época – uma época que continha tantas épocas –, embarcando no túnel do tempo.

Quando saí do beco, dei-me conta de que estava frente à Igreja de Saint Michel.

Andar em Montmartre é como mergulhar nas entranhas do Existencialismo.

Olho para cada detalhe daquelas pequenas casas de dois andares.

A verdade é que muito antes dos existencialistas este cenário já existia.

Reflito: a menina dos cachos dourados, a invisível companheira de viagem, essa presença, tão jovem, não era mais uma criança: tinha séculos!

A sala de aula me ensinou o convívio social.

Depois, foi meu próprio movimento.

Sempre flanei pela vida.

E ali estou eu, aspirando aquela atmosfera.

Um dos cenários: no bairro boêmio de Montparnasse, além do Panteão, a Igreja dos Inválidos (Église des Invalides), onde se encontra o túmulo de Napoleão, meu primeiro amor. (Eu me descobri viúva sem ter dado um único beijo. Meu amor francês estava condenado a ser platônico.)

Resolvo tomar um thé (chá), num daqueles pequenos cafés.

Olho em volta, parando bem no meio de uma pracinha: Contrescarpe.

Faz muito frio.

Entro num estabelecimento e peço meu thé desejado.

No interior, fixo-me numa mesa, a única ocupada, onde quatro mocinhas de uniforme, com bochechas rosadas e parecendo ter saído de uma escola, cercam um homem.

Em meio a elas, um sujeito grandalhão, gordo, veste-se a rigor para enfrentar a baixa temperatura. Chama-me a atenção os seus olhos verdes.

Explode em mim a alegria da procura premiada com os encontros.

Estou dentro de uma obra-de-arte, dentro da magia de várias épocas, e diante de... Orson Welles!

Minha alma gravou esta cena para sempre.

Não há dúvida: trata-se do exato momento em que compreendo que de fato preciso estar nesse mundo, ali, para me encontrar.












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3 comentários:

    Paulo Bentancur disse...

    Puxa, Marta! 15.000 visitas, hem... Como tem gente que te ama. Ou gente que ama viajar: pelo tempo e através de um território mágico, que é a terra real (francesa) porém recriada pela tua sensibilidade cheia de fantasia e de frescor. Parece que foi ontem! E, no entanto... A verdade é que teus relatos passam a perna no tempo. Textos deliciosos e reveladores, e feitos para durar. Parabéns.

  1. ... on 9 de novembro de 2009 17:16  
  2. Anônimo disse...

    Amiga Marta,

    chega a ser magia pura isso que você faz: pegar a gente pela mão, com sua escrita suave, e nois levar até aonde nunca fomos e talvez, infelizmente, nunca iremos. Lugares que sonhamos, sempre, em visitar. Eu, depois de ler você, já me sinto viajada (risos).

    Obrigada.

    Leda Maria Santos

  3. ... on 9 de novembro de 2009 17:18  
  4. Marta Schönfeld disse...


    Guita Braude Que alegria e que saudades, esse texto tao explicito narra com detalhes um passo da vida de um ser humano, tu.Belissimo, amiga querida me senti ao teu lado ou atras,te acompanhando nesse belo passeio.Que grata recordacao dos lugares que nos marcaram na vida a memoria e a lembranca sao os veiculos em nossa mente que agem para assim poder nos locomover e chegar a esta maravilhosa viagem.Bjs. e parabens Martinha querida me encantei!
    há 21 horas · Gosto

    Sybil Schonfeld Do Valle Lindo mama, estou louca para ler este livro porque mentes brilhantes como a tua devem ser apreciadas.
    há 11 horas

  5. ... on 27 de julho de 2013 16:17