Depois de duas semanas hospedada na casa da Norma De Monjou, comecei a não gostar dali. O marido dela, Conde e banqueiro, não tinha nada a ver comigo.

Eu, bem natureza, tentando caminhar como os indígenas, com o pé inteiro no chão pra ficar mais elegante, e ele me fazendo andar de salto agulha dentro de casa.

A austeridade dele era tão grande que, realmente, o santo dele não batia com o meu.

Às vezes eu temia: quem sabe não estava dentro do castelo da mocinha de "O Morro dos Ventos Uivantes?"

Novela (tirada do romance da Emilly Brontë), aliás, que escutei na infância, sentada num banquinho, na cozinha, de frente para o rádio.

Tinha um convite para me hospedar na casa da modelo Luana, até encontrar outra moradia. Baiana, negra, belíssima. A preferida dos maiores costureiros da moda como Courèges e Saint-Laurent. Fizemos amizade também em Saint-Tropez. Ela conhecia todos do Jet set, mas seus amigos eram mais artistas.

Oba! Acho que seria interessante morar com ela e, também, mais fácil.

Pensando bem, minhas roupas estavam todas guardadas em lockers; portanto, minha sacola de roupas era leve. O mais pesado era uma bota de camurça inglesa, plataforma, o cano tapando os joelhos. Completavam minha bagagem algumas roupas de meia estação, as melhores.

Mas o meu coração me chamava para as óperas-rock da época, para Pink Floyd, ou filmes como Blow-up ou Laranja mecânica; e eu amava Cat Stevens.

Beatles, então, eram a minha Bíblia.

Sabia que ia ter um show em Londres do Lou Reed, num enorme espaço especialmente selecionado para a sua estrela, que andava lá em cima, e seu público numeroso, Notting Hill Station.

Sua música instigava as garotas a caminhar do lado selvagem da vida: será que ele tinha feito aquela canção para mim?

Não, estou brincando, claro: era para todas!

Hey baby take a walk on the wild side




Sinceramente? Estava meio atrapalhada com aquela liberdade e também com as escolhas que teria que fazer. 


Sabia que não queria mais morar na casa da Norma.

Acabei pegando um táxi, fui até a Gare du Nort e tomei um trem para Londres. 

Ele iria até Callais e de lá pegaríamos uma espécie de navio-balsa para atravessar o Estreito de Gibraltar. Trocaríamos novamente para um trem que, pelas seis horas da manhã, pararia no centro de Londres, em Vitória Station.

Quando entrei no trem, pensei: onde será mesmo a agência de viagens do Oliver? 

Um amigo paulista que também conhecia meus amigos do sul que moravam lá.

Nos conhecemos num barco particular, que era da Marilda, minha amiga de Saint-Tropez. 

Fizemos logo amizade e ele me convidou pra me hospedar em sua casa, em Londres, quando eu quisesse.

Que me importava? Eu iria encontrar! Sim, eu tinha uma noção de onde ficava o lugar – bem, mais ou menos...

Ele era gerente de uma agência de viagens, que ficava num hotel cinco estrelas. 

Não me lembrava do nome, mas sabia que era num hotel cinco estrelas (o único dali), o que representava informação suficiente.

Quando chegasse em Londres, teria que pegar outro trem que pararia na frente do Hyde Park Corner, em Knightsbridge.

Tomei meu lugar.

Quando olhei em volta, só tinham jovens, prontos para entrar em ebulição. Jovens de todas as raças.

Começaram a tirar de suas mochilas vinhos, haxixe, entre outras maravilhas.

Alguns pegaram seus violões ou guitarras. Logo virou uma festa em todos os vagões. 

Íamos de vagão em vagão, encantadas com a fauna e a flora juvenis. 

Perfeito: aos poucos, com o balancinho do trem, fomos nos aconchegando nos bancos.

Logo vi que aquela procura não era só minha, descobri que milhares de jovens tinham sonhos como eu.

Meu estilo era um misto de rebelde pela ousadia de experimentar e de sensata por não me atirar em qualquer coisa de olhos fechados (isto também mais ou menos).

Notava que começaram a me tratar diferente, com respeito; diziam: "você é muito bem educada". Eu queria ir em frente, sempre, buscar coisas novas, eternamente, mas ao mesmo tempo não abria mão do meu romantismo.

Lá pelas duas da manhã, interrompemos nosso sono para fazer o translado para o barco.

A noite não estava tão fria: com um bom casaco e uma boina, quebrava-se o galho.

A lua cheia nos acompanhou toda a viagem: parecia um sonho que estava naquele lugar por minhas próprias pernas.

O mundo fervilhava nas paredes, com as pessoas, cada uma procurando um rumo diferente.

Continuava, assim, a minha incansável procura.

Novamente fizemos fronteira. Pela primeira vez na vida, pisava em solo inglês. Entrei no trem, sentei na minha poltrona e adormeci!

Vitória station! Vitória station! Os guardas apitavam avisando que tínhamos chegado numa das capitais do mundo

Quando acordei, já estava no coração de Londres.

Marta! Hello!

Sim, naquele momento eu tinha que estar inteira. Afinal ainda que desde pequena sempre tenha viajado sozinha, aquele era o meu primeiro voo solitário.

E qual era o meu nesse (eu não fazia contabilidades)?

Olhei em volta e me dei conta dentro daquele underground que ele era o dono do mundo indicando caminhos. Eu estava num lugar que parecia a estação dos reis.

Quando exatamente entrei no momento?

Fui perguntando onde ficava o trem para Knightsbridge.

Comigo carregava a lembrança de minha avó russa, de quem, desde pequena, sempre escutava:

"Quem tem boca vai a Roma".

Bom este ditadinho, né?

Para mim sempre foi!

O trem, esse eu já sabia que ele iria me levar para Hyde Park Corner.

Não posso descrever o que senti e o que vi quando saí da estação. Meu Deus, como custei a encontrar o meu mundo!

As pessoas flanavam pela Hight Street Kensighton. Cada uma com as suas vestes particulares, com seus cabelos pintados de verde. Me veio a lembrança de Manuel Bandeira:

"Quem não puder escrever versos como Baudelaire, pinte seus cabelos de verde."

Acho que ali não era a poesia só de um, mas de todos os poetas. Porque ali tinha cabelo verde, amarelo, azul, vermelho, e não só isso, mas a diversidade de roupas e costumes, sendo o maior momento do paz e amor.

Com a iluminação da própria Londres, em cores lisérgicas, querendo brilhar através da sua bruma difusa, dava a impressão que eu tinha entrado num paraíso mágico.

E, novamente, eu estava diante do espelho multifacetado me mostrando milhares de caminhos.

Pela primeira vez, apareceu dentro de mim um mestre e ele me mostrou realmente o que era agir com o coração.

Logo encontrei o meu amigo Oliver, que ficou super feliz de eu ter chegado. Me deu a chave de sua casa e o endereço, e me disse: "Menina, já estou com as entradas!"

Eu não queria nada da vida, ela mesmo fazia com que tudo acontecesse.

Penso que eram os meus astros que agiram durante alguns anos fazendo com que o universo providenciasse tudo o que eu precisava, da melhor maneira.

Oh, querido Oliver! Que, além de me receber, me tratou como uma princesa.

Chegando em casa, descansei, tomei um grande banho, e comecei a me preparar para o show. Oliver chegaria às cinco e meia da tarde, para às seis rumarmos para Nothing Hill.

Descemos diretamente dentro da estação onde iria acontecer o show.

Durante o evento, acho que entendi o que queria dizer "Lucy in the sky with diamonts".



E eu, fui abduzida?

Quando apareceu Lou Reed, aquele homem, de quase dois metros de altura, travestido como se tivesse saído de uma nave espacial, nas cores branca nacarada e cor-de-rosa, é claro, dizendo:

"Dê uma caminhada no lado selvagem da vida!"

Ai, meu Deus!

Todos nós, milhares de jovens ali, procurando uma nova identidade, tirando a couraça dos anos 50 e 60, éramos pessoas da nova era, trazendo um sopro de que todo nosso movimento queria expressar para o mundo:

Paz e Amor!





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10 comentários:

    Anônimo disse...

    Prezada Marta,

    permita-me uma observação. Aquela primeira foto, que abre a postagem, que beleza! Sentada num banco, bagagens ao lado, e uma pose que vou lhe contar... Que está engraçado, está! Que está revelando bem como deviam ser suas experiências, ah, está. E não é só a imagem, naturalmente; é o texto, um relato honesto, fluente e completo daqueles anos. Parece que eu estava lá!...

    "Companheira de viagem" Vilma Rezende (de São Paulo, SP), sua leitora fiel.

  1. ... on 20 de janeiro de 2010 11:02  
  2. Anônimo disse...

    Marta, que cinemão,impressionante! Fizeste um longa metragem daquela década, daquele espírito tão livre e tão encantado quanto torturado às vezes. Parabéns.


    Lúcia Mirtes da Cunha (Natal, RN)

  3. ... on 20 de janeiro de 2010 19:27  
  4. Anônimo disse...

    Marta, blogueira de plantão:

    muita coisa se publicou sobre aqueles temíveis e ao mesmo tempo encantadores anos, os 70! Mas sempre eram textos desbundados ou textos depressivos. E você pôs um ponto final nisso, juntando as duas coisas, e não sendo nem desbundado (porque existe humor no seu festerê) e nem deprê (porque você narra como uama reportagem objetiva e realista o horror dos porões da ditadura. Enfim, muitas de suas postagens são perfeitas. Ou quase, já que, como se diz, perfeição não existe. Grande trabalho, menina, continue!


    Evaldo Santoz Cruz - Recife, PE.

  5. ... on 23 de janeiro de 2010 06:19  
  6. Anônimo disse...

    Teu blog DE PARIS A SÃO BORJA já é sirpreendente pelo título, da Grande Cidade para a Pequena. No entanto, nada do que dizes é pequeno. Ao contrário, tu flagras a grandeza dos acontecimentos. É viagem pra cá e pra lá. Trem, metrô, barco, quilômteos a pé, e lugares milenares como castelos nobres ou paradisíacos e primitivos como ilhas enfeitadas mais pela natureza do que pela construção humana. Grande espetáculo. Admirável e emocionante.


    Sandra da Luz Seixas (Criciúma, SC)

  7. ... on 23 de janeiro de 2010 06:22  
  8. Anônimo disse...

    Marta: teu blog tem um "defeito"! (Risos.) É só a gente ler a mais recente postagem que já dá vontade de ler a penúltima e lendo a penúltima dá vontade de ler a antepenúltima, e lendo a antepenúltima dá vontade de... até chegarmos à primeira de todas, "Alice não mora mais aqui", que tem uma abertura sensacional! Eis um blog no qual a gente se vicia, e que vício bom... Muito obrigado! Abraços.

    Lídia Silva Aires. Niterói, RJ.

  9. ... on 23 de janeiro de 2010 06:26  
  10. Anônimo disse...

    Que coisa emocionante os últimos parágrafos. Uma síntese perfeita do que se buscava e doi que se encontrou (ou parte do que se encontrou) naquela época. Visão lúcida de um mundo de sonhos.

    Beijo.


    Valdemar Linhares Sousa (Londrina, PR.)

  11. ... on 23 de janeiro de 2010 14:18  
  12. Anônimo disse...

    Amei mais essa incrível viagem no tempo, tua visita a uma época que não sai de nossas mentes e corações. Bom domingo!


    Suzana Veiga Santos. Santa Mria, RS.

  13. ... on 24 de janeiro de 2010 11:13  
  14. Anônimo disse...

    Corajosa Marta!

    Quanta andança, experimento, e, também, lucidez para fazer a coisa mais importante do mundo: sabermos quem é que somos de verdade. E você saiu pro mundo atrás de si mesma. Poucos fazem isso. Fazem mesmo é turismo, não viagem espiritual, humana, em busca da própria legitimidade. Você é um exemplo. E sem "certinha" nem nada, o que dá um tempero especial aos seus textos. Beijo.


    Mário Cláudio Dantas Moraes, João Pessoa, Paraíba.

  15. ... on 24 de janeiro de 2010 13:29  
  16. Marta Schönfeld disse...

    Amigos!
    Voces me dão mais forças pra continuar.Quando demoram com os comentáros amáveis, fico bem desconfiada, será que não gostaram desta história? E, quando eles vem, meu coração fica pleno de alegria!
    Obrigada!

  17. ... on 24 de janeiro de 2010 17:06  
  18. Anônimo disse...

    A gente não LÊ a Marta, a gente CONVERSA com ela! Esse blog é uma aula de como se pode escrever sem colocar um biombo entre a autora e o leitor. É tudo às claras, com humor, despachado, com franqueza, a blogueira revelando todas as suas hesitações e tudo o mais. Se se encanta, mostra que está embasbacada com a beleza milenar do que vê. Se se desgosta, põe a boca no mundo, berra seu desconforto. Uma lição de legitimidade. Eis a maior qualidade, não bastasse ainda a gente fazer um autêntico tour pelo mundo real e o mundo psicológico de Marta. É de impressionar!


    Marcus Schulz Hoppe (Santa Cruz do Sul, RS.)

  19. ... on 27 de janeiro de 2010 09:19