O trem passou pela Gare Saint Ferdinand, onde Natalie me esperava.
A noite no trem tinha sido bem badalada, os vagões abarrotados de gente jovem descendo para as praias com vinhos e outras bebidas na mão. Festejávamos todos enquanto o comboio, de vagão em vagão, nos levava para um novo destino
E Natalie lá, na plataforma, esperando inutilmente que eu descesse.
Como eu dormia (que sonhos loucos estariam me embalando?), nem percebi.
A amiga ficou na estação e eu fui em frente, levada. O guarda do trem é que se lembrou que eu tinha pedido para ele me acordar. Foi me avisar na próxima estação. Na próxima! – quando já tínhamos passado.
Peguei tranquilamente meus pertences (nada me alarmava), desci do trem meia sonada, e telefonei para a casa de Natalie, que não estava, claro, e perguntei o endereço.
Pois bem, lá estava eu agora, atravessando os trilhos com toda minha tralha para pegar o trem de volta a Saint Ferdinand.
Cheguei em casa de táxi, onde já me esperava um lauto café da manhã e uma piscina para a qual tínhamos de descer vários patamares de jardim até chegar na água.
Encontrei ali uma amiga da mãe de Natalie que era da embaixada brasileira, ela foi logo me dizendo:
- Pode tirar a parte de cima do biquíni que aqui não se usa. Eu não faço isso porque tenho que me preservar pelo cargo que ocupo, mas pode esquecendo, aqui ninguém usa!
Sentei-me na beira da piscina e fui tirando a parte de cima. Me senti como se estivesse naqueles sonhos, andando nua no meio da multidão.
Dei um mergulho e subi para cima de um colchão. Foi quando vi a mãe de Natalie descendo aquelas ladeiras. Vinha muito sorridente.
Tratei de, bem depressa, me agarrar no colchão, deitada de barriga para baixo. Qual não foi a minha surpresa: a mãe dela... tirou o seu chambre, deu bom dia ao dia, e vi que seus seios enormes, caídos quase na cintura, estavam à mostra.
Se ela pode, eu também posso!
Logo chegou Natalie com um quimono verde-esmeralda da cor dos seus olhos. E me falou: "Marrrrrta, vamos para as praias. Hoje à noite vai ter uma festa aqui, para a tua chegada, e vamos convidar todo Saint-Tropez".
Meu Deus! Logo depois, eu no meio dos canaviais, até chegar nas praias, não levava nenhuma blusinha.
Aí aquele sonho virou pesadelo. Me sentia caminhando nua, com a mão no bolso...
Logo conheci pessoas maravilhosas, com corpos espetaculares, com olhos belíssimos, cabelos de anjos, de índios, nórdicos, enfim, toda a beleza variada e incontável do mundo num só lugar. Ficavam em volta dos quiosques, dançando e bebendo coquetéis de champanhe.
Uma coisa interessante, que notei, é que ali todo mundo falava alto, com trejeitos de quem estava depois da primavera, pronto para tirar a craca do inverno.
Oba! Oba? Não... ainda não podia ficar naquele paraíso. Antes tínhamos que ir no porto convidar para a festa os amigos todos que estavam atracados com seus barcos fantásticos.
Assim passou-se o dia, até que falei a Natalie: "preciso descansar, se não, não conseguirei ir à minha festa!"
E por ali entravam decoradores, músicos, caviar e tudo o mais...
Quando acordei, já estava quase na hora da festa.
Tomei meu banho. Lógico que contava com a peruca da Natalie: só quem a usava era eu! Botei um lindo vestido de seda pura, feito pela minha amiga baiana e criado por mim.
Nossa!, quando saí, toda a estrada da casa, até lá embaixo, estava iluminada. Parecia mesmo que tinha uma multidão, não menos que uma multidão.
Vieram músicos ingleses, por exemplo. Até príncipes, duques... A linhagem destas pessoas era impressionante e o must entre eles - "isto só no verão" - era o fato de um ser mais exótico que o outro.
Resolvi ser exótica também, pois aquela estadia tinha que ser inesquecível!
(E foi.)
Fui para a festa.
Além do francês que eu falava, tinha o espanhol que eu também falava (este eu dominava), sobretudo pela proximidade de Porto Alegre com o Uruguai e Argentina (aos quinze anos eu já tinha uma turma de amigos em Buenos Aires também, que eram amigos da minha turma do Clube de Cultura).
Vivia passeando por lá com meu irmão. Que sueños maravillosos naquela época, que cultura intensa entre o pensar e o agir movia os jovens nos anos entre 1964 a 1969.
Eu era também formada em inglês, mas embora conhecesse bem a língua, sabia ler mas não falava nada. Ou quase nada. Meio indígena, como continuo até hoje. Com o vocabulário bastante mais rico.
Durante essa minha estada na Europa – que tanto me fez bem –, cheguei a falar esperanto. Por exemplo: em inglês você pega umas três palavras que serão importantes para a sua comunicação, como: “Love is in the air.” O interlocutor responde: “Oh, yes! Oh, yes!”. Ou então você lasca: “My daughter is like a mirror.” O outro pensa um pouco e diz: “Yes, I understand.”
Sentei ao lado de um inglês cujo cabelo era amarrado em três ou quatro nós num rabo-de-cavalo até a cintura. Logo fomos sendo convidadas para ir à casa e às festas de todo mundo... Aquela, em minha homenagem, transcorreu tranquila, feita quase como um jantar, onde sentávamos em mesas baixas, ou em almofadas, mesas cheias de velas e regadas a champanhe.
Uma moça ia de mesa em mesa cantando, com uma voz linda, músicas de Joan Baez (na época, mal entrandona casa dos 30 anos). Baez tinha namorado Bob Dylan há uns sete anos e agora estava casada com David Harris, um opositor da Guerra do Vietã, que a estimulou para o estilo country rock. "Blessed are", long-play duplo de 1971, era seu maior sucesso no momento. Estávamos bem de repertório.
Depois da janta, o som fez-se ouvir e convidou nossos corpos e almas a se expressarem. Dançávamos, naturalmente, as músicas de então. Numa euforia de vida intensa, sentíamos a pitada desse milagre que cada um levava em seu coração.
Na hora, o que se manifestava fora de mim era tão intenso que eu não tinha tempo de mergulhar, nem de pensar naquela menininha.
Eu, sim, estava fazendo mais uma história para sempre dentro da minha viagem...




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6 comentários:

    Anônimo disse...

    Brava e também alegre Marta,

    depois de você ter me emocionado com o capítulo "Sob a mira das metralhadoras", agora você mata a minha saudade (ou melhor, salva essa saudadade, não a mata não!) com esse relato solto, despojado, franco - como é bem o seu estilo de escrever - acerca de momentos mais doces numa época que não era nada fácil para o mundo e principalmente para nós, mulheres, que ainda vivíamos a revolução sexual. Seu blog não é, me dê licença de dizer isso, apenas "seu" diário. É o diário de muitas de nós. Eu me incluo. Grande abraço.


    Celina Marcondes Viegas - Olinda, PE.

  1. ... on 12 de dezembro de 2009 09:54  
  2. Anônimo disse...

    Na hora da luta e na hora da paz você vai sempre com tudo, blogueira de invejável energia! É impressionante... Não dá para não ler, como dizia um slogan de um famoso jornal há muitos anos.

    MIGUEL REALE NETO (Piracicaba. SP)

  3. ... on 12 de dezembro de 2009 10:18  
  4. Anônimo disse...

    Pôxa, acordar sábado pela manhã e já fazer uma viagem dessas! O que mais se pode querer? Obrigado pela carona, generosa blogueira!


    Laís Araújo, Cachoeira do Sul. RS.

  5. ... on 12 de dezembro de 2009 10:34  
  6. Marta Schönfeld disse...

    Amigos queridos!

    Quero agradecer muitíssimo os comentários tão incentivadores. Realmente estava muito chateada, achando que ninguém tinha gostado do post por ser ele meio Doris Day.
    Mas a vida é assim, com ups and downs.
    Nessa época, se eu tinha problemas, não enxergava. Fiquem ligados que prometo que tem muito mais histórias alegres e tristes em frente.

    Obrigada pela força dos comentários

    Marta

  7. ... on 13 de dezembro de 2009 10:01  
  8. Paulo Bentancur disse...

    Mademoiselle Marrrrta!

    Está engraçado e com muito pique este teu post. Eu ri em algumas passagens. Aquelas descrições da viagem do trem, no qual adormeces e erras o ponto da descida, e o natural uso do topless estão de fato impagáveis. Uma cultura (a tua de então e a nossa de hoje) boquiaberta diante de outra cultura num outro mundo, o Velho Mundo, o europeu... Excelente!

    Beijos e continua nessa batida, sob a qual a gente cai na festa. Ou na consciência.

  9. ... on 13 de dezembro de 2009 10:07  
  10. Anônimo disse...

    Condutora Marta,

    esse verão aqui no Sul... Conheço o de Porto Alegre: uma panela de pressão. Ah, a única escapada, pelo jeito, é mesmo ir a Saint-Tropez contigo, através deste teu blog que representa nossas melhores férias. Mesmo nos dias úteis. Gracias, muchacha!

    Laís Araújo, Cachoeira do Sul. RS.

  11. ... on 1 de janeiro de 2010 11:54